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Encontrando a nós mesmos – John Stott


Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará.
(Mc 8.3 5)

Como esse versículo fala de salvarmos e perdermos a nossa vida, eu costumava pensar que ele se referia especificamente aos mártires cristãos que, ao morrerem por Cristo, entravam na vida eterna. Embora o versículo possa incluir uma referência a martírio, eu agora vejo que Jesus tinha uma aplicação muito mais ampla em mente do que essa. A linguagem indica isso.

A palavra traduzida por "vida", psuche, quer dizer "alma" ou "eu". Na verdade, Lucas transmite a declaração de Jesus com o reflexivo simples: "Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?" (Lc 9.25). Alguém poderia talvez parafrasear o epigrama favorito de Jesus, que ele parece ter usado em vários contextos diferentes, desta maneira: "Se você insistir em agarrar-se a si mesmo, e recusar abrir mão de si, e determinar viver por si mesmo, você se perderá. Esse é o caminho da morte, não o caminho da vida. Mas, se você estiver disposto a perder-se, a entregar-se em amor ao serviço do evangelho, então, no momento de completo abandono, quando pensar que perdeu tudo, os milagres acontecerão, e você encontrará a si mesmo".

Em anos recentes, várias escolas de psicologia têm desenvolvido essa posição que enfatiza a auto-percepção. As palavras soam promissoras a ouvidos cristãos, até que nos lembremos de que, segundo Jesus, o único caminho para a auto-descoberta é o da autonegação, e o único caminho para viver é morrer para a o nosso egoísmo.

Em dois epigramas semelhantes, Jesus usou linguagem comercial — a linguagem do lucro, do prejuízo e da troca. Ele fez duas perguntas retóricas, que permaneceram não-respondidas. Primeira: Que proveito há em se ganhar o mundo inteiro (toda a riqueza, o poder e a fama que ele oferece) e perder a si mesmo? Segunda: O que alguém ganharia em troca de si mesmo?

Ambas as perguntas enfatizam o valor infinito do eu em contraste com o valor do mundo. Por um lado, é impossível ganhar o mundo inteiro. Por outro, se fosse, isso não seria algo duradouro, e, conquanto durasse, não traria satisfação.




Josemar Bessa / John Stott / Blog do Lucas
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